Sim, é isso mesmo, eu sou Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei e começo a participar aqui do site do Engenho já agradecendo pelo convite e pelo espaço generoso, esperando estar à altura dos meus colegas vizinhos de site e dos leitores.
Eu já vinha com uma idéia rondando meus pensamentos por alguns dias e quando o convite do Alexandre surgiu vi que a oportunidade era essa para abordar esse tema. Tudo começou (alguém se lembra dos Waltons?) numa rodada de debates realizada aqui em GoiâniaTown durante o Festival Bananada 2007, organizada pela Mostro Discos. Estávamos uns poucos reunidos discutindo coisas como CNPJ, lucro presumido, contrato social e outros detalhes burocráticos que são chatos, mas necessários a quem quer se organizar para desenvolver algum trabalho quando eu vi subindo as escadas um clone do Johnny Thunders. O cabelo idêntico, a calça de couro apertada, a blusa meio andrógina, tênis esculhambados e o jeitão cool de andar e de mostrar ao mundo que nada na verdade interessava.
Do jeito que subiu as escadas passou pela discussão e foi-se embora para o outro lado do Centro Cultural Goiânia Ouro sem dar atenção ao que estava sendo dito.
Fiquei matutando naquela figura vestida como um refugo dos anos 70 e tentando entender a tão ostensiva “atitude” dele. E então começou a ficar um poquito más claro para mim.
Ali estavam reunidos produtores, jornalistas e assemelhados que se envolvem com a parte da organização dos eventos do rock independente, muitos que querem ganhar dinheiro com isso, e esses são os extremamente mal vistos por gente como o simulacro de Thunders que passava por ali. Ele não se uniria à nossa reunião, porque via naquele bando de gente um monte de playboys que viviam inseridos no sistema, conservando o status quo e servindo de referência para tudo que ele odiava: controle, ordem, método, burocracia, caretice, negociações e quetais.
Sequer gostaria de saber, o jovem Thunders, se aqueles ali discutindo isso realmente gostavam disso ou se faziam isso por absoluta necessidade de lidar com o sistema e fazer os sonhos serem reais. E esse é o ponto que me interesso mais por discutir, porque vejo aqui em GoiâniaTown a criação de facções dissidentes que amam o mesmo rock, mas que gostam de se detestar.
E não vou ser alucinado ao ponto de dizer que um lado está correto e outro errado, porque tenho a firme convicção que dentro de 40 anos, várias pessoas que vivenciaram um ou outro lado da questão estarão certos e convictos de suas crenças, da mesma forma como hoje estão. Não vão mudar sua forma de pensar, e que bom que não mudem, porque isso realmente não é uma necessidade, mas que bom se pudessem se irmanar e juntar forças, porque o grande adversário está um pouco além dos nossos vizinhos.
Para quem não é de GoiâniaTown cabe explicar que sou rotulado como um marketeiro demoníaco de direita, e o rótulo vêm daqueles que se intitulam partícipes do underground. Isso para ficar claro quem fala e de quem fala.
Deixado isso claro volto aos meus questionamentos, olhando do lado de cá, e meu estranhamento com as disparidades existentes na nossa cena, e que imagino que existam em inúmeras outras cidades também. Quando reunimos pessoas que querem montar sites, produtoras, selos, revistas e que querem fazer isso como uma fonte de renda e de sobrevivência, acho fácil explicar. Estou envolvido nesse lado da situação, e acho natural porque sou casado, estou “grávido” de meus primeiros filhos e sei o quanto custa um litro de leite e o quanto me custa ganhar o dinheiro para pagar esse leite. Seria perfeito juntar a necessidade de ganhar dinheiro com a paixão pelo rock, mas até o momento não encontrei forma de fazer isso funcionar. Mas entendo perfeitamente o interesse que muitos possuem em se aproximar de entidades como o Sebrae, de buscar fazer as coisas com fluxo de caixa e contadores envolvidos, porque essa é uma forma de gerar retorno financeiro.
Entendo quando um produtor busca uma lei de incentivo cultural junto ao poder público, porque vejo que o imposto que eu pago precisa me gerar algum retorno, e se o produtor paga impostos, ele também quer o seu retorno. Não existe vergonha em querer apoio do poder público para um evento, principalmente quando esse evento alimenta uma cadeia produtiva que envolve um número grande de pessoas. Uma vez vi numa discussão orkutiana um argumento de que é engraçado usar o termo “independente” quando se busca a lei de incentivo para bancar, mas quem faz um comentário desses quer ignorar que o “independente” se refere à parte artística da coisa. Obviamente.
No “Botinada”, documentário que retrata o início do movimento punk no país, o Ezequiel Neves (uma moça-velha que cuidava do Barão Vermelho, dentre outras coisas) fala que “se complicar o rock, o rock morre”, e vi muita gente usando esse argumento do finado Neves para dizer que a organização profissional dos eventos e dos meios de comunicação matava a criatividade do rock. Isso é de uma boçalidade gigantesca, uma coisa é a criação artística, outra coisa é o trabalho para alimentar a circulação dessa obra artística.
Outra vez, durante o mesmo Bananada citado acima, um músico de uma banda que tinha acabado de tocar no festival usou esse argumento pobrinho e que “a organização mata o rock” ou coisa parecida, isso depois de usufruir do palco e do som profissional, além de toda estrutura profissa e bem organizada do evento. Onde está a tão falada “atitude” aí? Fácil ser rebelde depois de se valer do trabalho dos vilões do rock, certo?
Acho ainda mais engraçado e oca a postura do “CtrlC-Thunders-CtrlV” e demais clonezinhos quando vejo que a postura rebelde de hoje é extremamente acomodada. Fui professor universitário e já via na época que a população estudantil deixou de lado a briga politizada e a inconseqüência dos seus atos em troca da farra gratuita. A rebeldia de hoje é sustentada pelos mesmos velhos porres, mas por uma falta absoluta de perspectivas e planos, e talvez o niilismo esteja voltando à moda, quem saberia dizer? Talvez então o lema seja viver o que der enquanto der, porque não existe muita coisa sincera e honesta depois dos 30 anos. Não existem mais bandeiras, talvez seja isso, e o que se vê hoje é uma mimetização de velhas atitudes guardadas no congelador, sem buscar superação nem acréscimo. Sem tentar ir além.
Mas como ir além depois de GG Allin? Como ir além num mundo de hipertexto e linkania? Nos anos 70 os Dolls faziam algo em NY e isso era um vago burburinho na Europa ou mesmo na Flórida, mas hoje qualquer coisa feita num palco é imediatamente colocada no Seu-Tubo e disparada pelas milhões de listas e grupos de discussão. Como superar o que é feito num palco no outro continente? Só abrindo a própria jugular e bebendo o próprio sangue, e isso talvez ainda não tenha sido feito, preciso dar uma olhada na inFernet para conferir.
Poderia resumir tudo dizendo que o lado da “direita” que busca lidar com o sistema está buscando ir além e superar o que já foi feito, e justamente nesse momento de “transar com o diabo” que se torna mais fétida para a “esquerda”. O underground vê esse movimento de inserção como um movimento vendido e cínico. E o que o underground propõe como passo adiante? É uma pergunta sincera de quem vê a conversa do outro lado da sala, porque eu realmente não sei, e não vejo. Entendo uma pessoa de vinte anos que queira viver para os finais de semana com rock alto e muita birita, sem se preocupar com o que virá. Mas aos trinta esse personagem começa a ficar meio caduco. Ou não? O que vejo são os mesmo comportamentos repetidos, sequer reciclados, e que se perpetuam pelo argumento de que já funcionam suficientemente bem. Mas será só isso então?
Os velhos slogans funcionavam porque existia um contexto que os justificava, então quando um DJ chinelão de Chicago como Magnificent Montague gritava “Burn, Baby, Burn”, ele estava estimulando os quebra-quebras monumentais dos EUA da década de 60. Só para registro é bom saber que o contexto que criou o mote matador de Montague era de guerra nas ruas: em 1966 43 cidades americanas foram devastadas por confrontos, e outras 164 nos primeiros meses de 67. Em Detroit, o mais violento desses confrontos deixou 43 mortos, 7 mil presos, 1300 prédios destruídos e 277 lojas saqueadas. E hoje quem está disposto a enfrentar o status quo tão odiado? Onde estão as vozes de protesto além dos palcos protegidos e seguros? Qual seria o motivo que justificaria um brado de ódio como esse? A mesada atrasada?
Sim, sou cínico ao fazer a ironia, preciso ser. Talvez por ter passado em muito dos 30 anos, talvez por realmente me decepcionar com atitudes cotidianas de gente ao redor, talvez por achar que poderia ser muito melhor ou por ser um pseudo-velho saudosista, o fato é que não posso ver aquele sujeito caricato passar direto sem pensar no enorme desperdício que ele é.
“Burn, Baby, Burn”??
Nhé....
Há braços!
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com