Só.
É estranho perceber que eu pareço sentenciado: tendo chegado ao mundo sem ninguém, devo seguir vivendo todos os meus segundos vividos sem ter ninguém. De hoje em diante, até sempre.
Sim, é claro que já me fiz acompanhar várias vezes. E não nego que muitas dessas vezes foi prazer o que eu julguei sentir, mas o sol muda de lugar e mais uma vez eu não vejo ninguém por perto. Ouço e tenho a firme convicção de que me engano, e que a multidão sempre me acompanha, mas infelizmente a convicção não é o que sinto. E o que sinto é só.
Espantoso é defender o ganha pão oferecendo colo e solução, carinho ou compreensão, e em intervalos regulares, e cada vez menos esporádicos e menores, eu não perceber que colo exista para mim.
E não entendam errado, pensando que porventura minhas companhias não fossem capazes de generosidade simples como um ombro, um toque, uma palavra terna. Nada disso. Sempre me encontrei rodeado por pessoas de imensa generosidade e ternura, sinceramente preocupadas e interessadas em mim e no meu bem viver. Não reside o mal aí, mas sim em mim próprio! Incapaz, inepto, estulto, obtuso e confuso; sempre mergulhado de forma tão intensa em meu egoísmo, que a generosidade ao meu redor termina por se perverter em insulto e ameaça a minha existência. A mão que afaga é só a que apedreja.
Eu, tão focado no íntimo do meu estômago, que toda candura e bondade humana se esfumaçam em gestos perdidos, dos quais não guardo sequer a lembrança. Perdem-se.
Tão maldita é minha sina que nada de bom a mim dirigido perpetua-se. Ao invés, se transfiguram em insinuações, maledicências, depravações e fuga.
"Sozinho, covarde, confuso e canalha."
Fosse eu um produto, e tal seria o rótulo que se pregaria à minha fronte até quase a raiz dos ossos das têmporas, mascarando as expressões cínicas de um rosto incapaz de um olhar honestamente interessado.
E vivo meu texto bem ensaiado.
Acostumei-me a dizer não gostar do ser humano; e centenas de vezes fui ouvido afirmar minha crença de ser o ser humano um crasso erro natural ou divino, e nesses momentos reverbera sempre mais alto a fama de insano ou excêntrico, de divertido ou cruel, qualquer tarja que simplifique a convivência para as vítimas que me rodeiam. Fazem assim mais leve os seus fardos de terem que conviver com um estupor da minha laia.
Não gostar do ser humano é a mais grossa mentira, já que a verdade escondida talvez seja íntima e interior. Penso agora que realmente quem me desgosta a existência seja eu mesmo. Tenho meu demônio vivendo em minha pele, e meu maior inimigo me contempla do espelho, sorridente e sardônico. Diverte-se me vendo rodopiar qual uma cobaia roedora que nunca acha água ou saída de labirinto. E diverte-se porque seu prazer mais refinado não é minha dor, mas justamente minha completa ausência de sentires.
Sobra-me nenhum sentir no decorrer do dia do dia do dia do dia. Sem sentir dor, sem sentir amor, sem sentir frio, sem sentir desejo. Somente me permite sentir medo e fome.
Medo de ter que encarar tão temível adversário, mesmo sabendo da inevitabilidade disso; e que a toda manhã ele vai me observar, do seu anteparo de prata e vidro, vendo-me fenecer na sua frente, a pele perdendo o viço, a fronte perdendo a pelagem, o membro perdendo a rigidez... e ele me fita.
Por vezes penso que nem mesmo esse horrendo rival consegue crer numa existência tão amorfa e sem ritmo. Até para um ser crivado de ódio, feito de sombras e chamas, mesmo para ele, que já aparenta ter contemplado o que de podre pode existir em uma raça... mesmo ele não aceita a presença imunda que eu causo ao mundo.
Mas deixa-me sentir fome, o tirano. Uma necessidade nunca preenchida. Sempre esfaimado, com os dentes arreganhados num esgar desesperado, ansioso por algo que ocupe suas brechas pantagruélicas, seus vácuos silenciosos. Uma fome que já tentou ser saciada com literatura, com poesia, com rock, com sexo, com álcool, com cinismo, com maldade, mas que nada aplaca.
Uma fome que me faz sugar brilho e vitalidade de tudo quanto existe a minha volta; supernova terminal que não se contenta consigo.
Me deixa sentir só isso, e os caminhos nunca avançam, o primeiro passo não sai, a dança não começa, e tantos planos que patinam e naufragam. E espero o melhor momento para o próximo. Perpetuando essa chacina de sonhos inocentes, que por único pecado natural possuem o fato de serem sonhados por essa cabeça insone. Cabeça que espera o melhor momento para o que virá.
Só.
Espero só.
Sentado num auditório lotado de ninguéns, de espaços, conceituando uma rede como um amontoado de buracos amarrados; tentando subir aos telhados para poder urrar verdades; mas tetos não se alcançam e verdades não existem. Terminando plasmado numa calçada marcada por desejo, violência e caos.
Se até os palhaços se convertem em assassinos, e doces são sempre desculpas para o novo veneno, como acreditar no toque e no silêncio?
Vivo em barulho e rudeza, dando solavancos, arrancos e topadas nas quinas da casa. Vejo os olhares que me contemplam e não me compreendem por me julgar intenso e profundo. Pobres bestas que são! Que sequer percebem que não tenho estofo para a profundidade. Sou raso e insípido, sem cor nem sabor, um estudo num canto da folha de papel que sabe que não vai ser desenvolvido.
E fica no canto da folha.
Só.
Olhando para a poltrona na minha frente e tentando entender – sofrimento supremo – o que diabos eu deveria fazer! A velhacaria maior de querer que alguém decida e aponte o caminho, para poupar a angústia e a ansiedade de qualquer passo a ser tomado. Cansado de ser um personagem sem texto, mas sem malícia para seduzir o autor, e sem coragem para me mostrar na luz.
Escondido no canto escuro do palco, soltando leves sons de aprovação ou não, esperando que isso soe grandioso ou genial. Sendo patético como são patéticos os calhordas.
Parindo desculpas como aranhas, semeando racionalizações e esperando – desgraçadamente – que isso desperte elogios ou loas. Criando termos, movimentos, tiques e toques diferenciados, mas nunca deixando de ser o velho cavalinho de pau. Jogado num canto sujo do quarto, alimentando um sonho lisérgico de ser um puro sangue guerreiro. Um corcel fogoso em meio à batalha e aos trovões, galopando invencível em meio à chuva e aos tiros.
Tudo isso jogado num canto sujo do quarto de brinquedos.
Esquecido e só.
Tendo a convicção de ser o guia para uma elite de bárbaros, eivados de ideais e belas cores; bárbaros que não percebem que quem os guia não é um iluminado, um eleito, mas sim uma puta. Puta baixa, vulgar, com sandálias que não combinam e a maquiagem borrada pelas lágrimas. Chorando de vergonha, e ninguém vê.
Repelindo todo contato por se acreditar maravilhoso e visceral, capaz de encantar as deusas e as ninfas, a supra essência do melhor plano possível.
E na verdade repelindo a tudo isso por não ter estrutura que agüente qualquer sentimento que seja inesperado, forte ou doloroso.
Jurando-me inovador e criativo e revolucionário, sentado em minha cadeira de balanço, usando chinelos velhos.
E só.
O Inimigo do rei - purgando gota a gota